O Homem da Voz Ativa

 

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Jovens pretos, vocês sabem aquela rotina de serem perseguidos ‘discretamente’ por um segurança quando entra numa loja? Sabe aquela outra rotina que lhe dá um séquito assim que põe os pés num shopping Center? Sabe aquela sinfonia de travas de carro que se inicia assim que você começa atravessar no meio do trânsito congestionado? Sabe aquela abordagem policial violenta que geralmente começa com o adjetivo predileto para nos definir: vagabundo? Então, James Baldwin tem algo a dizer sobre isso e você tem que ouvi-lo.

Nascido no bairro do Harlem, em Nova Iorque, James começou a escrever aos doze anos de idade, ainda jovem ganhou uma bolsa de estudos e foi viver na França, mas no filme do diretor haitinano Raoul Peck isso nem é mostrado, não é o foco. O diretor se concentra na vida adulta de Baldwin e a sua luta junto aos amigos ‘famosos’ pelos direitos civis dos americanos. O roteiro do filme é baseado num manuscrito de James Baldwin chamado “Remember This House”, projeto que ele próprio intitularia de “uma jornada”.

 

O filme é recheado de imagens de Baldwin em entrevistas, palestras e debates. O rico material levantado pelo diretor aproxima muito o escritor do público, James é eloquente, expressivo e, acima de tudo, inteligente. Discorre sobre a violência cotidiana motivadas por questões sociais, aponta os pretos como vitimas do processo histórico, joga luz sobre as injustiças sociais da qual seu povo é vítima e denuncia a violência que matava os seus, entre eles, seus três grandes amigos: Medgars Evers, Malcon X, Martin Luther King Jr., reconhecidos líderes negros norte-americanos.

James era apaixonado por , mas entendia a indústria cinematográfica como um dos principais agentes de fomentação do e preconceito racial. Aponta nos filmes clássicos americanos mocinhos brancos (raça dominante) matando indígenas (os outros) e tornando-se herois, personagens negros infantilizados e em papéis de servidão sempre, reforçando estigmas. Numa das passagens mais marcantes da película enquanto Samuel L. Jackson discorre sobre a violência policial contra os pretos que lutavam por direitos na década de 60, as imagens são da luta atual dos pretos americanos, iniciada, principalmente, em Ferguson e Baltimore, onde jovens negros foram assassinados por policiais, e tem o movimento “Black Lifes Matter” como principal voz das reivindicações, ou seja, os problemas permanecem e a luta também, o que torna o filme atual e de suma importância para alimentar o debate. Esse é um dos acertos de Peck, o outro é a escalação de Samuel L. Jackson como ‘a voz’ de Baldwin, sem afetações e de maneira muito sóbria contribui muito para que sobressaia a força imagética de “Eu Não Sou Seu Negro”. O documentário é fluído, nada de dados sobressalentes que ‘atravancam’ algumas obras do gênero, mais um ponto para Peck.

Em tempos de representatividade pretas confusas no Brasil, pra se dizer o mínimo, com jogadores de futebol não se reconhecendo pretos, com político renegando nossa luta, renegando nossa história de exclusão social e ignorando a sistematização da marginalização empreendida pela classe dominante, o filme de Raoul Peck é um belo exemplo de engajamento para os nossos jovens pretos. James Baldwin e a luta da comunidade preta por direitos civis nos Estados Unidos nos servem como amparo e inspiração. O escritor achou seu lugar na luta, e não era com ódio aos brancos e também não era dando a outra face, mas sim como testemunha, uma testemunha ativa e que não se omitia quando chamado para dar voz aos que eram calados. Uma voz sagaz, capaz de nutrir a sociedade de novas, relevantes e fundamentais perspectivas, mostrando que o ativismo é um ato complexo e pode ser feito de diversas formas, inclusive fomentando conhecimento e debates. Uma voz ativa, uma testemunha ativa e pronta para servir ao seu povo. A nossa juventude negra precisa de voz ativa, para citar Mano Brown e os MC´s mais uma vez.

O pecado de Raoul Peck foi omitir, ou simplesmente resvalar, a homossexualidade de James Baldwin. James encontrava críticos e resistência a sua figura até mesmo dentro do . Seria uma ótima discussão problematizar ‘os movimentos dentro do movimento’, mas Peck preferiu não. Deixo aqui a problemática.

James Baldwin tem algo a nos dizer e explicar, e é urgente assistir “Não Sou Seu Negro”.

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