Espetáculo Lívia: A inclemente finitude

 

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Existe um paradoxo muito difundido e muito discutido que dá conta que nós começamos a morrer assim que começamos a viver. Se caminhamos em direção à morte ou se é ela que vem em nossa direção assim que abrimos os olhos pela primeira vez não temos como saber, mas a única certeza que temos na vida, é a morte, como bem diz a sabedoria popular. O que chamamos de vida, então, pode ser considerado o ato entre nascer e morrer, é uma jornada. Muitos artistas, filósofos, pensadores se perdem ao tentar traduzir a complexidade da vida, ou se tornam repetitivos e enfadonhos, e isso está muito longe de acontecer no espetáculo Lívia, em cartaz no Espaço Parlapatões até o dia 30/07.

Lívia é um espetáculo leve sem deixar ser profundo, seu maior trunfo é a sua simplicidade. Retrata a vida de um casal jovem que se conhece em um museu e passam a viver a vida juntos, enfrentando as agruras e a docilidade de uma relação amorosa. Tudo em Lívia é lírico, sutil. A direção de Draysson Menezes e Orlando Caldeira nos permite criar ambientes, aguça a nossa imaginação, nada é entregue sem o esforço imaginativo do espectador, acompanhamos a trajetória com as nossas próprias referencias, isso torna Lívia tão familiar a todos nós. A se estende pelo cenário de Lorena Lima, pela luz delicada de Gabriel Prieto, e no figurino funcional criado por Cristina Cordeiro. Dentre tantos acertos podemos destacar o maior deles, os atores. Sol Menezzes e Licínio Januário estão plenos vivendo Lívia e Felipe, eles atuam com toda a poesia e simplicidade que a obra opta por ter como linguagem, suas personagens vão envelhecendo e sem qualquer recurso de maquiagem e adereços eles trazem em seus corpos e rostos o peso que chega com os anos passados. Pontuam movimentos de , lembrando Contato Improvisação deixando ainda mais poética a peça do Coletivo Preto.

 

 

O texto, escrito pelos dois atores, é fluído, inteligente, engraçado e tocante. Lívia não é só a de uma mulher preta e seus sonhos espalhados no chão ao longo dos anos de sua vida, Lívia é a história de todos nós. A história desse ato que acontece entre o nascer e o morrer, cujas linhas estamos escrevendo nesse exato momento, e obras de arte grandiosas como Lívia nos fazem refletir sobre nossas escolhas e a reverberação que terão por toda a nossa vida finita. Lívia vale muito o ingresso.

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