Preto Tipo Wakanda

 

Por André Santos, ator, diretor do Coletivo Favela em Cena e jornalista.

Quando um filme como Pantera Negra é lançado, uma avalanche de material crítico e informativo vem na sua rebarba. Fruto de uma gigante da indústria cinematográfica e com uma distribuidora poderosa, o alcance da obra é incomensurável. Dias após o seu lançamento vários textos, spoilers  e Easter-eggs já são conhecidos do público em geral, mas o que pra nós, pretos, é fundamental termos em mente quando assistimos Pantera Negra? Ou enquanto pensamos sobre?

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Marvel Studios’ BLACK PANTHER
T’Challa/Black Panther (Chadwick Boseman)
Credit: Matt Kennedy/©Marvel Studios 2018

 

Pra tentar ilustrar o meu olhar sobre a obra destaco inicialmente uma cena que considero emblemática no sistema de destruição da autoestima preta: a cena do museu, logo no início do filme, onde vemos Erik Killmonger , interpretado excelentemente por Michael B. Jordan, num museu na Europa, visitando uma exposição de “Arte Africana”. Uma funcionária do museu, branca, aparentemente responsável pela exposição, desconfia daquele homem preto ali num local de poder, coloca seguranças em seu encalço e ela própria passa a acompanhá-lo num reconhecível ato de vigilância, mais adiante ela o adverte “ninguém pode tirar essas obras daqui”, ao que o cidadão preto responde “E, como foi que seus antepassados trouxeram-nas até aqui? Eles não roubaram de África?”, a resposta é sim, roubaram, nos roubaram e roubaram muito mais que isso.

Desde o início da diáspora negra a violência que a população preta sofre diariamente a priva não só de bens matérias e de direitos básicos a vida humana, a priva também de autoestima e, como consequência, representatividade. Crescemos com as mídias nos mostrando todo o tempo que pretos não ocupam lugares de poder, de destaque, e sim papéis sociais secundários e marginais, essa bestialidade forjou o nosso inconsciente durante séculos, mas importantes passos estão sendo dados para acabar com tamanha brutalidade.

 

É bom também que se diga que a indústria cinematográfica não está nos dando nada, nem está corrigindo seu erro histórico com a comunidade preta, já que essa indústria também ajudou e muito a construir grande parte desse imaginário coletivo que tenta nos inferiorizar, nos dando sempre papel de subalternos, infantilóides ou criminosos, James Baldwin já identificava essa culpa em seus discursos.

Para essas empresas colossais do seguimento é de altíssima importância ter artistas do naipe de Lupita Nyong’o, Chadwick Boseman, Letitia Wrigth, Michael B. Jordan, Forest Whitaker entre outros que formam o elenco de Pantera Negra, todos os estúdios e distribuidoras querem esses atores e atrizes, por serem talentosos, por serem cobiçados pelos seus concorrentes, por serem bonitos, porque são garantia de bilheteria, ou seja, vendem muito bem o produto final, são selos de qualidade estampado nos filmes. Essas empresas sabem que nós pretos hoje ocupamos importantes lugares de poder, estamos na ciência, na política, no empresariado, nas artes, e que dispensamos categoricamente os papéis que nos relegaram por tempos e tempos, hoje somos protagonistas e exigimos sermos retratados assim, por isso, Pantera Negra era tão necessário.

Particularmente acredito ser de suma importância ter referência e sempre utilizo esse espaço parar salientar a importância do protagonismo preto para as nossas futuras gerações, crianças e adolescentes tendo referências manifestas de super-herois, presidentes, cientistas, escritores, jornalistas, médicos, astronautas,  referências de reconhecimento imediato, com a qual criamos empatia instantânea e vão moldando o nosso inconsciente. Poderia pegar como exemplo a personagem Shuri, vivida pela atriz Letitia Wright, uma cientista fenomenal prodígio, espirituosa, princesa, com conhecimentos em artes marciais e bonita, ou então, a Okoye, líder, forte, ágil, inteligente, leal e igualmente linda, ou o próprio T’challa, descendente de uma linhagem de reis pretos, líder de uma nação rica e altamente desenvolvida tecnologicamente, forte, inteligente e bonito. No entanto, quero ser ainda mais generalista e quero falar do povo de Wakanda, como um todo.

Olhe o entorno de Wakanda, com o olhar para além dos protagonistas, para além das personagens secundárias, é primoroso o trabalho feito com o elenco de apoio, a figuração, todos em Wakanda andam de forma ereta, firme, orgulhosos por pertencerem àquele local. O preto de Wakanda te olha de cima, não há submissão ou servidão, tem brio nos seus olhos e sorrisos. Pretos hirtos que não se curvam, pois sabem o seu real valor. Esse é o preto tipo Wakanda. Esse valor é onipresente em Pantera Negra, Ryan Coogler, diretor do filme, nos presenteou com essa referência, nos mostrou os benefícios da autoestima, da dignidade, que nos tomaram há séculos no estalo da chibata e do revólver, mas que vamos reconstruindo, quer queiram ou não.

Poderia, pra finalizar, falar do sucesso estrondoso que é o filme Pantera Negra e todas as críticas positivas que vem recebendo, poderia também falar da quantidade de dinheiro que o filme tem ganhado no mundo todo, poderia falar ainda mais sobre a quantidade de pessoas que já viram o filme, ou de como os atores principais, as estrelas do filme, aumentaram sua justa fama e estão valorizados no mercado, mas tudo isso já foi dito e está devidamente posto.

A riqueza está nos detalhes, aqui mais do que nunca essa premissa é verdadeira, observem os pretos de Wakanda, o seu poder, sendo senhores de si, com sua autoestima elevada e conhecedores da sua real capacidade. Assim, seremos todos nós, cada preto, uma referência. Sejamos referência, sejamos pretos tipo Wakanda!

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